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  • Ana Claudia

A experiência ao abrir seu coração

A vida dá muitas voltas, e a gente nunca espera que ela vai nos trazer experiências tão intensas depois de já ter passado por tantas outras coisas durante os anos, mas foi assim que me vi, ao me encantar por essas histórias e abrir as portas para acolher alguém. Quando abrimos essa porta não imaginamos o quão intensa é a experiência, a quantidade de bagagens que vem junto e como isso vai nos transformando e nos engrandecendo enquanto pessoas durante todo o tempo, fica difícil explicar em palavras.


Senhora de óculos, com jardineira, sorrindo entre as folhas e flores amarelas. Imagem colorida.

Fonte: Site Pexels. Senhora de óculos, com jardineira, sorrindo entre as folhas e flores amarelas. Imagem colorida.


Algumas são mais rápidas que outras, a minha foi de 2 anos. O processo em si é desafiador, você começa a se conectar com alguém que até então não conhecia, e aí se vê responsável para que essa pessoa fique bem, cresça, se desenvolva, e que sua família também se fortaleça para que por fim, ele possa voltar à sua origem.


Você aí, que está lendo, por acaso conhece algum adolescente? Se sim, deve saber que todo adolescente tem por si só várias peculiaridades da idade e dessa fase, são mudanças de corpo, mudanças de como se sentem e se veem, uma série de embates e questionamentos internos que eles sofrem, e imaginem isso potencializado pelo contexto de precisar ser retirado de sua família de origem, e mais, ter doenças físicas que são engatilhadas por conta do emocional? Foi uma missão e tanto.


Durante esses dois anos, tivemos que correr para o hospital algumas vezes, e a jornada era um pouco mais desgastante, um de nossos períodos do dia mais complexo era a noite onde ele enfrentava enurese noturna causada por gatilhos emocionais. Então, cada passo que demos sempre teve o suporte de uma equipe técnica que nos acompanhava para saber como estávamos indo no acolhimento, para acompanhá-lo com as psicólogas e psiquiatras, um dos nossos maiores esforços era ir cuidando e trabalhando do quesito emocional, não só do meu menino, mas também se sua família de origem.


Lembro de ficar feliz de estar ali por ele, ver progredir, e abracei a história dele como minha missão, e não iria desistir até entregá-lo de volta a sua família original que era o objetivo desde o início. Depois de mais ou menos um ano, fizemos uma tentativa, mas não deu certo e ele retornou à mim, e nós continuamos nosso processo de acolhimento. Eu aprendi muito com ele e com tudo, poder ter estado lá pra ele, e permitir que meu lar fosse a referência de lar para ele também.


A família de onde ele nasceu enfrentou inúmeras questões, mas uma coisa era inegável, sua mãe que era deficiente auditiva, era extremamente amorosa com ele, então eu queria muito que isso desse certo para todos eles, nesse período, enquanto ele estava comigo, cheguei a abrir as portas de casa também para sua mãe para momentos de interação e desse fortalecimento familiar e emocional. Porque um dos papéis nesse processo é também o desenvolvimento da família de onde a criança ou adolescente vieram, para que um dia eles possam retornar… bom, com isso ela ( a mãe biológica dele) pegou muita confiança em mim, e estabelecer esse vínculo faz toda a diferença, e é algo humano sabe? Quando percebe está conectado com o outro.


Seguimos nosso processo, confesso que nesse meio tempo talvez por não falar muito sobre, e apesar de todo suporte que recebemos, alguns dias eram mais carregados que outros, com tensões e preocupações, por isso, acabei desenvolvendo pré diabetes e hipertensão, mas essas coisas não me pararam, eu ainda queria ver a missão completa e cumprida.


No ano seguinte, no fim do ano fizemos uma nova tentativa de reintegração, com sua irmã, tive até uma oportunidade única, que geralmente não acontece… pude acompanhar a audiência concentrada deles, e fui a primeira a realizar isso. Como a mãe biológica dele tinha deficiência auditiva e também confiava muito em mim, eles entenderam que era bom que eu fosse, e eu fico muito agradecida por isso, poder ter participado e visto de perto que a missão estava sendo cumprida e meu menino podia voltar para sua família de origem. Estar ali foi de longe uma das experiências mais emocionantes da minha vida, e tudo isso foi inesquecível.


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